É Mais do que Fake News: A Nova Propaganda

É tempo de chamarmos a enxurrada de fake news dessa eleição pelo termo correto: PROPAGANDA.

Não é como se seu parente ingênuo estivesse em casa inventando notícias, fazendo sites e pensando em números e estatísticas falsas; é um processo calculado de doutrinação, criação de um sentimento unificado de nacionalismo e descrédito da imprensa. Prática antiga em regimes totalitários, repaginada pra era da informação.

E está mais eficaz do que nunca. Porque é impossível explicar um a um todos os erros nas 1000 correntes que circulam os smartphones a cada segundo, e cada explicação que você fornece é rejeitada por +1000 informações falsas. É impossível competir se você busca um diálogo pautado em fatos e argumentos – e uso aqui a palavra impossível em seu sentido literal.

A Propaganda fala mais alto porque atua num âmbito sentimental; e com os infinitos dados disponíveis sobre a população na era da informação, ela literalmente manipula através do estudo de perfis psicológicos e direcionamento calculado da informação.

O diálogo racional não é páreo pra essa manipulação emotiva que casa perfeitamente com as redes sociais. Passa a ser “a verdade” a informação que mais enaltecer O Herói da Nação e/ou a que mais desabonar O Inimigo.

É a nova Propaganda. Só que agora, é pior.

Antes a Propaganda veiculava em meios oficiais e fontes distantes. Agora, atua na intimidade, com as pessoas minando a credibilidade da imprensa e espalhando a confusão para seus amigos e parentes através de uma relação que aparenta ser pessoal. Não há mais fronteiras entre você e Ela.

Mas não leia esse texto pensando em um político dando um discurso inflamado, como na Propaganda antiga: pense em programadores, algoritmos e analistas diante de planilhas, sutilmente ajustando o tom do debate, fabricando textos, memes e prints e semeando em grupos de whatsapp, facebook e outros.

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Foto de Bryan Bedder para o Concordia Summit

 

Hoje a Cambridge Analytica – que se dividiu em duas empresas, a CA Political e a CA Commercial – passa por investigações criminais nos EUA e Reino Unido pela manipulação direta do processo democrático (tanto nas eleições em diversos países, incluindo os EUA, como no próprio BREXIT).

O problema é que eles continuam atuando – e talvez o caso recente mais impressionante seja aqui no Brasil.

Não é coincidência que a família Bolsonaro tenha se envolvido com Steve Bannon (co-fundador da Cambridge Analytica), que através de manipulação de dados de redes sociais ajudou a eleger Trump e a promover a passeata da extrema direita com suásticas, tochas, rifles e bandeiras racistas em Charlottesville. Não é coincidência que a família Bolsonaro promova sem nenhum pudor a ideia de que as urnas sejam fraudadas (mesmo estes tendo sido eleitos constantemente por essas urnas, inclusive nesta eleição), assim como postem incessantemente em suas redes sociais notícias falsas sobre o Haddad (chegando ao extremo de acusá-lo de defender o incesto).

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Eduardo Bolsonaro em seu encontro com Steve Bannon, em Agosto de 2018

E acho que é dolorosamente óbvio pra todos que o crescimento inexplicável do Bolsonaro desde o início das pesquisas não aconteceu devido à sua impressionante capacidade intelectual, seu inesquecível carisma ou suas complexas e inovadoras propostas econômicas e sociais (espero que o sarcasmo não tenha sido sutil demais).

Sim: o Grande Irmão está te observando. E o mais lamentável é que é um fenômeno mundial que não há muito como prever onde vai dar. Só dá pra prever que vai ser desastroso para o ambiente, para os mais pobres, para minorias étnicas e para a diplomacia (porque já está sendo).

Em Myanmar inclusive há um genocídio étnico contra os Rohingya sendo perpetrado E abraçado pela população através da simples manipulação de informações no Facebook.

Lembram quando Elon Musk alertava sobre os perigos da Inteligência Artificial? Era a esse tipo de coisa que ele se referia: não máquinas explodindo civilizações, mas ao possível uso político da capacidade colossal de processamento de informações das IA. E já está acontecendo agora, diante dos nossos ingênuos olhinhos espantados, que não conseguem entender de onde surgiu a distopia pra qual estamos caminhando.

E digo mais: é ingenuidade achar que nós temos como lutar contra esse fenômeno só corrigindo as informações falsas e usando nossa capacidade de argumentação.

Ou criminalizamos essa prática com urgência e responsabilizamos severamente TODOS que se utilizaram dela até então, ou lamentaremos as consequências (consequências essas que já estão tragicamente visíveis nas fotos e vídeos de pessoas votando com armas e nas constantes agressões praticadas neste período eleitoral – como o assassinato do mestre de capoeira Moa do Katendê por um bolsonarista).

O difícil é esperar que essa iniciativa parta de líderes do executivo ou legislativo – que tem todo o interesse do mundo em usar essa prática em favor de si mesmo.

E ainda que parta, será o suficiente? Eu honestamente não sei.

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