Eleições não importam

Não compreendo hoje a preocupação com quem vencerá a próxima eleição (Lula, Bolsonaro, Aécio, Marina, etc.). Já refletiram a história do Brasil dos últimos 50 anos? Últimos 30? 5? Ainda acreditam que o voto popular tem algum controle ou voz sobre quem governa o Brasil e como?

Não me refiro apenas a quem senta na cadeira de presidente. Nosso senado, a casa mais poderosa do Brasil, é ainda hoje temperada com herdeiros de coronéis escravagistas. As eleições alternadas para o senado garantem que a casa nunca seja renovada por completo. Vem regime vai regime, vem governo vai governo, os financiadores das cadeiras são os mesmos.

E, na democracia, desenvolvemos o hábito nocivo de nos focarmos histericamente em líderes do executivo, como se estes fossem reis onipotentes. Pior, nos focamos em suas campanhas publicitárias ao invés de seus atos administrativos ao longo de suas carreiras. Fazemos um sopão de responsabilidades do legislativo, judiciário e executivo e passamos mandatos inteiros discutindo personalidades do executivo sob esta ótica. Não falo como um observador externo, falo como alguém que também participou desta dinâmica muitas vezes, como qualquer seguidor de mais tempo pode ter observado.

Mais saudável que nos focarmos em personalidades seria divulgarmos como funciona o financiamento de campanhas; como funciona o jogo de interesses na política; como um interesse passa de um grupo da população para um pedaço de papel a ser votado numa assembléia, como se informar sobre quem votou a favor ou contra; como se informar sobre alianças e as motivações por trás dessas; enfim, como a política realmente funciona. Aqui entra, inclusive, a grande importância de ensinar mais e mais às pessoas como verificar informações, dados e estatísticas; como separar fatos de boatos.

Não digo que isso “resolveria” nossos problemas. Temos uma bagagem cultural e histórica muito pesada (talvez até impeditiva). Não sou um pessimista nem um otimista. Nossa realidade é a de um país que está na mão de interesses de grupos pequenos há muitos séculos; nossa história e nossa cultura foram construídas sobre essa pedra. Modificar a mentalidade e os paradigmas mais fundamentais de uma população não é impossível, mas é trabalhoso, complicado e cheio de revezes por parte de quem tem poder e recursos pra manter os hábitos culturais em cheque.

Mas creio que o foco em eleições e em líderes de cadeiras do executivo só serve como manobra de massas; um jeito eficaz de manter nossa democracia servindo não a interesses gerais da população, mas a interesses de pequenos grupos que sabem como jogar o jogo da política.

Como já disse antes, política não é uma bela batalha do bem contra o mal, luta da honestidade pra acabar com a corrupção. Isso é só a maquiagem que publicitários de partidos, políticos e grupos sociais e econômicos aplicam pra direcionar a pressão pública.

Política é jogo de interesses. É a forma de convivermos no mesmo lugar alocando recursos de uma mesma bacia pra várias pessoas que tem interesses diferentes; de criar regras, aplicáveis a todos, que façam intermédio entre o interesse de diferentes grupos  que convivem sob o mesmo “teto”.

Se há um engajamento especificamente focado em políticos e personalidades no qual vejo sentido, é o esforço em ensinar diversos grupos da população a jogar este jogo de interesses – ao invés de continuarmos trocando figurinhas e quebrando amizades e famílias em nome de discordâncias ideológicas.

Fora isso, ir na reunião do seu condomínio ou da associação de bairro é exercício de cidadania muito mais eficaz que fazer campanha em eleição. Se vacinar e incentivar seus familiares é engajamento político muito maior que votar. Divulgar conhecimento é tempo mais bem gasto que postar notícias e mais notícias de políticos, gritando para o  eco do abismo em suas redes sociais.

Não digo que o voto popular tenha valor zero sobre os rumos do país. Eleições não são apenas sobre o momento atual, mas também sobre construir história e uma imagem para o resto do mundo.

Porém, enquanto não compreendermos que política não é só isso, o Brasil continuará nas mãos de poucos – não importa quem ocupe que cadeira. As cadeiras, na verdade, precisam se tornar cada vez menos poderosas, se nosso objetivo é que as pessoas que as ocupam sejam obrigadas a conciliar e atender os interesses de cada vez mais grupos da população.

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