O termo Global Warming (Aquecimento Global) foi cunhado inicialmente para se referir a uma série de eventos físicos neste complexo sistema termodinâmico que chamamos de Terra, que tem potencial de alterar a formação do planeta e colocar em sério risco as condições de vida para nós, seres humanos, assim como muitas outras espécies. Com exceção dos cálculos termodinâmicos mais específicos e da compreensão dos processos físico-químicos, não é muito mais complexo do que termodinâmica básica e um pouco de química e biologia – mas levou algum tempo para se estabelecer porque é assim que a ciência funciona: com levantamento de hipóteses e coleta de dados.

O processo de coleta de dados atmosféricos e climáticos levou alguns anos e confirmou a correlação entre as mudanças climáticas observadas e a fase de industrialização das sociedades humanas – unida a certos componentes químicos que reagem de forma específica com alguns gases de nossa atmosfera, como o ozônio, por exemplo, que é essencial para garantir que uma parte danosa da radiação solar seja absorvida ou dispersada antes de chegar até camadas mais baixas da atmosfera e, em último caso, até a superfície.

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Dados coletados por diversas agências de forma independente. Não é uma questão de opinião.

Essas mudanças provocam alterações na energia interna deste grande sistema termodinâmico que é o nosso planeta, e quem prestou atenção nas aulas de Física se lembra que ao mudar a energia interna, você altera uma série de outras propriedades das moléculas – como pressão, volume E TAMBÉM temperatura. Atenção a este ponto: a temperatura é apenas mais uma das propriedades termodinâmicas envolvidas, mas não a única, já que há uma relação direta entre ela e outras propriedades termodinâmicas.
Como a Terra não é um sistema isolado do universo, e sim um sistema dinâmico, essa alteração termodinâmica leva a reações em cadeia. Pra pensar em exemplos, basta novamente se lembrar das aulas de Física e pensar em fenômenos naturais que envolvam mudanças de pressão, temperatura e volume: derretimento de geleiras, furacões, aumento de marés, invernos mais frios, verões mais quentes, mudanças nos ciclos de chuva, secas, enchentes, etc. etc. etc.

Nada muito complicado, quando pensamos nos conceitos de Física envolvidos e, principalmente, não enfiamos interesses políticos na discussão.

O problema é que pra lidarmos com fenômenos físicos causados diretamente por indústrias, precisamos lidar com interesses econômicos. E é nessa hora que grandes indústrias fazem campanhas pra associar teorias científicas a grupos políticos, como forma de polarizar a população e ganhar força política para não se comprometer com mudanças que afetam seus custos, lucros e royalties.

E o grande problema que surge é que a Ciência – enquanto campo de conhecimento – é primordialmente apartidária e apolítica. Então, nos cursos científicos mundo afora, não há as disciplinas de Marketing, Política e Ignorância Humana.

Assim sendo, os cientistas que cunharam o nome “Aquecimento Global” não imaginaram inicialmente a quantidade gigantesca de políticos e imbecis que usariam “mas aqui está frio!” como argumento pra manipular a população e levá-la a ignorar que o aumento da energia interna de sistemas termodinâmicos complexos não implica em uma temperatura aumentando universalmente. Na verdade, implica exatamente no oposto: condições de temperatura, pressão e volume muito mais imprevisíveis, provocando reações em cadeia que levam a invernos muito mais frios e verões muito mais quentes, colocando em risco a estabilidade climática da qual dependemos para ter desde práticas básicas como agricultura e pecuária, até questões estruturais como fontes de energia elétrica e mesmo cidades inteiras construídas em litorais e regiões que anteriormente eram consideradas habitáveis.

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Exemplo de conceito artístico que até é bonito e bem-intencionado, mas que gera enganos conceituais – que sempre serão explorados com fins políticos.

Por essas razões, hoje o termo Global Warming foi alterado para Climate Change – Mudança Climática -, na tentativa de evitar o engano conceitual que é a ideia de que essas mudanças implicariam apenas em aumento local da temperatura em todo ponto. O problema é que até essa mudança é usada por líderes industriais e políticos (assim como analfabetos científicos) como argumento para dizer que “os cientistas não se decidem”. Infelizmente no Brasil nós mantivemos o termo Aquecimento Global – e eu aceito sugestões de novos nomes, que tragam um peso um pouco melhor para aquilo a que de fato estamos nos referindo. Eu faria sem nenhum problema uma campanha para alterar este termo para algo mais preciso e que traga mais peso para a questão.

Aquecimento Global é uma questão de crença tanto quanto é uma questão de crença não deixar sua panela de pressão mais tempo no fogo do que deveria. Os princípios termodinâmicos envolvidos não são assim tão diferentes. A diferença é que não tem nenhuma indústria na sua casa tentando te convencer a manter sua panela no fogo por mais tempo que deveria, assim como não tem políticos imbecis ao seu lado falando “Mas esse feijão nem está derretido, isso é tudo mentira!”

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Ignorância científica, interesse político, ou ambos?

Ah, uma pequena tangente importante: se seu pódio pra apresentar suas conspirações é o canal de um reacionário sem nenhum envolvimento ou comprometimento científico, que fez sua fama à base de lançar ao vento xingamentos de quinta série contra pessoas muito mais bem-sucedidas, é difícil acreditar na sua credibilidade científica. Assim como também não é bom sinal que todas as suas publicações sobre o tema não sejam cálculos e dados experimentais publicados em periódicos científicos, mas apenas textos esparsos com suas teorias conspiratórias sendo publicados em revistas sem qualificação acadêmica. É o mesmo grau de credibilidade dos místicos que publicam suas hipóteses nas revistas de “Saúde Quântica” e outras do gênero.

Mas dá pra compreender. Se tem uma coisa que os gurus brasileiros tem ensinado com maestria é que quando você é uma piada no meio acadêmico, basta usar uma parcela ignorante da população pra fazer sua plataforma. Pra que lidar com o crivo rígido da comunidade científica e intelectual na busca da verdade se você pode lidar com a adoração incondicional de um público ingênuo e desinformado na busca do lucro?

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“Ameaças mesmo! Aquecimento global é coisa de maconheiro! Viva Bolsomito!”
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2 comentários sobre “Aquecimento Global: entre a Ciência e a Política

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