Minhas opiniões sobre o Trump não são segredo, já apontei pontualmente várias das razões pelas quais eu acho ele um péssimo presidente e uma pessoa pública ainda pior.

Porém… as notícias sobre “a mãe de todas as bombas” são clickbait e exagero, se aproveitando da raiva que a maioria das pessoas já tem dele e criando uma imagem exagerada a seu respeito. O grande problema com esse tipo de abordagem é que diminui a credibilidade das críticas reais que devem ser feitas. Assim, acho importante termos cuidado para pautar nossas opiniões em fatos, não anedotas ou manchetes emotivas.

A tal bomba que estão noticiando como “mãe de todas as bombas” é no máximo a criancinha mais velha na creche dos estalinhos – o que, quando o assunto são bombas, segue tendo grande poder destrutivo. A verdadeira MÃE de todas as bombas, como eu disse no meu vídeo sobre a Bomba H, é a Tsar Bomba russa, que tem uma potência de até 50 MT. A bomba lançada por Trump contra a região do Afeganistão tem uma potência de até 20T.

1Mt = 1000 kt = 1000. 1000 t.
1 Tsar Bomba = 2.500.000 GBU-43

tsar_photo11
Esse é o impacto de uma versão REDUZIDA da Tsar Bomba russa, a real “Mãe de todas as bombas”

Ou seja, o que está sendo noticiado como a “mãe de todas as bombas” e depois sutilmente corrigido nos subtítulos como “a mais potente bomba não-nuclear” equivale a, na verdade, 0,00004% da Mãe de todas as bombas. Procurei saber se esse título não foi na verdade usado pelo próprio presidente pra fazer mais uma de suas afirmações megalomaníacas, mas, até então, não encontrei.

Um outro acréscimo: a região atingida por Trump já foi também bombardeada muito mais vezes na administração Obama. A diferença é o tipo de abordagem publicitária das duas figuras: o Obama vendia o presidente carismático da paz (ganhando um Nobel da paz no mesmo ano em que as tropas americanas invadiam diversos países estrangeiros); já Trump vende o cidadão comum patriota megalomaníaco que fala o que pensa.

O que não podemos é deixar que essas imagens publicitárias falem mais alto que suas ações administrativas – que são os pontos onde sempre foco todas as minhas críticas, tanto sobre esses políticos quanto políticos brasileiros, mas sempre sou rechaçado pelos torcedores que defendem seus ídolos políticos independente dos argumentos pontuais que são apresentados.

A parte nada surpreendente é que as mesmas pessoas que antes diziam que Hillary Clinton era muito intervencionista e bélica e por isso o Trump era melhor, agora dizem que Trump está certíssimo, que a bomba GBU-43 tem um dispositivo mágico que só acerta terroristas que comem criancinhas e distribui cestas básicas para famílias famintas.

Não se enganem, o mesmo aconteceria se o resultado da eleição fosse outro. Assim como o “Fora _____” é considerado automaticamente antidemocrático ou heróico dependendo de que nome preenche a lacuna, e ainda o “______ 2018” é sem dúvida a maior burrice do mundo ou a grande resposta do povo à ameaça _______.

E, sob as críticas de todos os torcedores, sigo tentando esclarecer minha posição desde sempre: precisamos aprender a nos informar e dialogar sobre política de forma um pouco menos passional e mais interessada em fatos e argumentos pontuais.

Deixo aqui mais esse grito no deserto.


vídeo sobre a Bomba H:

Errata: A MOAB – Massive Ordnance Air Blast – foi lançada no Afeganistão. Trump também ordenou ataque com mísseis à Síria, mas não com a bomba GPU-43. Correção feita no site no dia 17/04/2017.

Errata: A potência da MOAB está entre 10t e 20t, e não 10kt e 20kt – ou seja, ainda 1000 vezes menor que o postado inicialmente. Logo, não equivale a 0,04% da Tsar, mas 0,00004%. Correção feita no site no dia 18/04/2017.

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4 comentários sobre “Trump lançou mesmo a “Mãe de Todas as Bombas” contra o Afeganistão?

  1. Aparentemente a utilização da MOAB não foi determinada pelo Trump, mas pelos líderes militares dos EUA. Não busquei ter certeza dessa informação (até pq acho que ela não deva ser aberta ao público), mas o próprio deixou parecer isso em uma reportagem.
    Nesse sentido, é possível imaginar que esses líderes estariam se aproveitando do bode expiatório ou ainda se utilizando da mídia para minar ainda mais a popularidade dele (o que não é dizer que o Trump precise de alguém querendo isso, ele consegue acabar com a própria popularidade sozinho).
    Além disso, pelo pouco que eu vi, a MOAB é conhecida como Mother of All Bombs “apenas” pelo trocadilho, já que a sigla se refere à Massive Ordnance Air Blast.
    Dito isso, e sabendo que seu texto trata de mais do que somente a bomba e seu lançamento, parabéns pelo trabalho Davi.

    Curtido por 1 pessoa

  2. A primeira vez que ouvi o termo MOAS como Mother Of All Bombs foi no seriado Under The Dome, quando eles lançam um míssil contra Redoma e todos lá dentro ficam apavorados quando descobrem.
    Então não, o termo não é o Trump, já deve existir a algum tempo ^^

    Deixa eu ver se eu entendi, essa MOAB é quase 2 vezes e meia mais forte que a Little Boy, e não é nuclear? O.o

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    1. Errata sobre meu comentário anterior: na verdade, a potência da MOAB está entre 10 e 20 t, não kt. Isso reduz o valor que eu tinha mencionado em 1000.

      Então, eu encontrei fontes com valores entre 10 e 20 t. Confesso que não tinha pensado em termos de Little Boy, mas esta tinha uma potência de 15kt – não me lembro agora qual foi a potência real, porque ela atingiu um valor baixíssimo de material fissionado. Acho que falei o valor no vídeo mas não tenho certeza.

      Vale lembrar que a Little Boy é famosa por algumas razões específicas – foi a primeira de fato usada em guerra (e uma das únicas duas da história) e porque foi lançada contra uma região de civis. Mas, quando o assunto são bombas nucleares, ela também não está entre as mais potentes (não à toa seu apelido é “Little Boy”) – o que, novamente, quando o assunto são bombas, especialmente nucleares, continua tendo um poder destrutivo imenso – especialmente quando o alvo são regiões com população civil.

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      1. Esqueci o principal: lembrando que a pior parte da bomba atômica é que não tem apenas a potência da explosão, mas a emissão posterior de radiação, que atinge um raio imenso por um período de tempo prolongado (de anos a séculos, dependendo da bomba).

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