Métodos de tortura oficialmente autorizados por juiz contra jovens e adolescentes que se manifestam por uma causa. Já começam as notícias de polícia atirando contra manifestantes – o que já é de praxe no Brasil quando se coloca “educação” e “manifestação” na mesma frase. E uma galera batendo palma porque, no pequeno universo de alguns, o único papel do estudante é ir nas aulas e tirar nota boa (pra não falar dos que não podem conceber que o mundo real invada seu diário de presenças).

Tem estado na moda falar da “doutrinação esquerdista” que os professores de humanas supostamente faziam e fazem nos colégios, mas nota-se que a doutrinação que funcionou de fato nessa minha geração lamentável (tenho 29 anos) foi a utilitarista. E não foi feita por professores, mas por um estilo de vida rigidamente determinado pelo mercado, sua estrutura e suas tendências.

Uma criança é apenas um projeto de pessoa. Pode apanhar à vontade se quando crescer não se lembrar mais da dor. Pode receber apelidos pejorativos e ser perseguida diariamente no seu colégio, porque bullying é só uma palhaçada inventada pra dizer que os sentimentos de uma criança tem alguma importância (onde já se viu???). A criança só vira pessoa quando se torna adulta.

O adolescente, idem. É só um projeto de trabalhador. Seu papel é estudar e se preparar pra ser uma engrenagem funcional nessa grande máquina da sociedade, e as escolas são apenas a linha de montagem (vide projeto escola sem sentido). Discutir sobre a sociedade ou ensinar senso crítico não é papel da escola, é papel das novelas da globo e da internet.

Qualquer causa que um jovem abrace é sempre taxada como fruto de um adulto puxando a cordinha (quase sempre o coitado do professor), afinal, mudar a sociedade não é interesse ou papel desses pequenos alienados sem senso crítico, e sim de nós, sábios adultos de cabeça feita, incapazes de conversar dois minutos sobre política sem xingar a mãe do outro ou ter um ataque de nervos quando alguém diz “não é bem assim” (sendo o cético chato de quase todos os grupos sociais que já participei, eu aprendi a enxergar esses ataques de pelanca dobrando a esquina numa conversa – mas não se engane, de vez em quando dou os meus também).

Os únicos seres humanos com visões válidas e que devem ser respeitadas são aqueles que compartilham das nossas visões, nossas prioridades, nossa idade, nossos preconceitos e nosso modo superior de julgar como mimimi qualquer reivindicação que vá mexer na nossa marmita. Ocupações estudantis, manifestação de minorias, greve de professores, paralisação de bancários, protesto de motoristas; qualquer movimento que mexa na nossa rotina não é direito de protesto, e sim uma conspiração pra causar incômodos na nossa vida, visto que a sociedade, as pessoas e o mundo inteiro orbitam no nosso umbigo.

Aos que acham que “nossa geração tem uma casca mais dura”, preciso dizer que eu tenho uma vergonha desgraçada da mentalidade conformada e conservadora que observo diariamente na maior parte dos adultos dessa nossa geração. Sabemos teorizar e analisar com destreza todos os problemas da sociedade, mas viramos uma criança mimada quando lidar com esses problemas exige que a gente tire a bunda da cadeira, ou quando alguém pede pra mudarmos um pouco nossa rotina ou até nosso vocabulário racista e machista que “era normal nos anos 90”.

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“Geração mimimi! Agora tudo é preconceito! No meu tempo é que era bom! Se cale se cale se cale”

Agora, com os estudantes abraçando uma causa – seja porque lhes foi apresentada, seja por iniciativa própria, seja para dar suporte a seus amigos e colegas – a primeira resposta não é ouvir suas reivindicações e preocupações, mas sim atacar a credibilidade dos movimentos, os professores que apoiam, as notas baixas que eles tiram no resto do ano, o estilo de vida eufórico e irresponsável de um adolescente e qualquer outra coisa que possa desvincular seus protestos de uma causa justa e válida, ou diminuir seu papel em nossa sociedade.

A tendência atual de preferir vencer debates do que buscar compreender a situação e evitar as possíveis consequências futuras de não lutarmos hoje ataca novamente. É mais confortável deixar pra discutir e reclamar desses problemas no futuro do que atuar agora na prevenção deles.

Parabéns e boa sorte aos estudantes que estão se arriscando nas ocupações. Tenho um grande receio de como essas ocupações serão tratadas pelo governo atual e pela polícia (como já tem começado a acontecer), especialmente porque, no Brasil, protestos pela educação sempre foram recebidos com balas e bombas. Mas quem não se posiciona está fadado a ser carregado e empurrado pelos outros a vida inteira.

Preciso ser honesto: tudo indica que é uma causa perdida. Mas ninguém luta por causas que já foram vencidas. Não se espelhem em quem é conformado até na hora de brigar por causas que considera justas.


Sobre a tendência atual de preferir a vitória no debate à solução do problema, fiz este vídeo no canal – Gurus, Especialistas de Facebook e Sofistas Modernos


*a foto da capa desse texto é apenas ilustrativa, referente aos protestos de 2015


Quer apoiar meu trabalho? Acesse https://www.apoia.se/primatafalante

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3 comentários sobre “Ocupações Estudantis e a Reação Conservadora

  1. Uma triste realidade, pelo menos na minha antiga escola, a mesma do menino sendo enforcado pelo PM, é que muitos dos mais engajados nas manifestações eram os alunos com as menores frequências de aula… E como mostrado num canal de um membro da MBL a maioria deles não tinha muita noção do que estava fazendo dentro da ocupação e nem pelo o que estavam lutando sempre com o mesmo discurso… Esse fato acaba infelizmente desvalorizando a causa.

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  2. A matéria linkada na frase “polícia atirando conta manifestantes” mostra uma bala ainda na cápsula como suposta prova do ataque por parte da polícia. Bom físico que és, sabes que balas perdem as cápsulas quando são atiradas. Pode ser que o texto da matéria seja verdade, mas aquilo não foi uma bala disparada pela polícia -nem por ninguém.

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  3. O protesto dos bancários é tão inútil quanto o dia taxistas, ambos lutam contra o avanço trazido por novas tecnologias. Os primeiros, contra o tear que substitui o operário, os últimos, contra um concorrente que é preferido pelo público (nesta condição só se vence “jogando sujo”: por sabotagem ou fazendo o governo inviabilizar o supracitado concorrente). Tal qual os luditas, que atacavam fábricas na Inglaterra, quem luta contra algo que preste o mesmo serviço por um preço mais baixo sempre perde. Não há vontade que possa contra o avanço!

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