Vi pelas redes este artigo listando estudos que apontam que mais de 40 horas de trabalho semanal são danosos à saúde e contraproducente para os resultados.

Um estudante, seguindo a grade normal, passa pelo menos 25 horas semanais em aula (em geral, é mais). Para estudar em casa o equivalente a uma hora de estudo por hora de aula, já se vão 50 horas – o que não costuma ser suficiente, já que há trabalhos e listas que, sozinhos, tomam mais de dez horas, e boa parte dos professores acha que sua disciplina é especial.

Se for universitário e bolsista, some as 20 horas semanais habituais da legislação, e temos uma pessoa com 70 horas semanais de trabalho, considerada como alguém que “só estuda”. Vale lembrar que a maior parte das bolsas exige dedicação exclusiva, então são 70 horas de trabalho a R$400 obrigatoriamente. E agora temos projetos de lei tentando obrigar bolsistas a também cooperarem em escolas públicas, já que bolsistas são considerados sangue-sugas de impostos por uma parcela grande da população.

Aí fica mais claro porque é que estudantes procuram tanto por “como gerenciar
o tempo” e coisas do tipo. Na maioria dos casos, não é que sejam incompetentes no gerenciamento, é que precisam cumprir uma carga horária desumana se quiserem seguir o planejamento normal, além de encarar o status social (depressivo) de estar “só estudando”. Some-se a pressão em conseguir boas notas e resultados e fica também óbvio porque a taxa de problemas como depressão e crises de ansiedade é tão alta em estudantes de pós-graduação.

Não estou advogando por muita coisa, apenas pela mudança na forma como estudantes são enxergados (desde ensino básico até pós-graduação). A mentalidade geral dos brasileiros ainda é de encarar a educação como perda de tempo e dinheiro, ou como um mero estágio intermediário entre a infância e o mercado de trabalho. E isso acaba se refletindo diretamente em como educação e pesquisa são tratadas politicamente, retroalimentando um ciclo interminável de desvalorização da atividade intelectual no país.

Isso gera um milhão de consequências sociais, econômicas e tecnológicas que, no momento, tomaria muito tempo listar e só tornaria esse textão mais textão ainda. Mas fiquem à vontade pra acrescentar estatísticas, pontos e contrapontos nos comentários. Talvez eu faça um apanhado e lance mais um vídeo a respeito do assunto, porque, pra mim, é um dos problemas mais urgentes do Brasil, mesmo considerando toda a crise política atual.

O vídeo em que já pincelei o assunto é este:

 

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4 comentários sobre “O Trabalho Duro de Quem “só estuda”

  1. Parabéns pelo texto como vc pode ver eu li inteiro o textão. Só queria acrescentar que todas essas coisas já foram analisadas e debatidas talvez não essa geração mais nova agora de estudantes talvez eles nunca ouviram falar de problematização nesse mundo deles e tal, afinal não é atoa que surgiu no mundo uma cultura chamada “cultura da rebeldia” ou simplesmente de pessoas que não queriam se sentir uma maquina. Se não tivermos pessoas analisando criticamente o sistema em que vivemos o mundo vai ficar esquisito e já tá, o sistema é cheio de problemas e tratá-lo como normal é bizarro.
    Acho importante que você falou sobre doenças nervosos nesse contexto, isso é bem importante.

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  2. Poxa, seu site tá super bonito, que legal!

    Essa mentalidade de que estudante não faz nada é muito complicada mesmo! Só a gnt sabe quanto tempo, quantos finais de semanas e feriados não desgrudamos dos livros, pra receber de volta a falta de incentivos na própria faculdade, da família e da sociedade.. no fundo é bem ingrato.
    Eu já quase desisti diversas vezes e muitas por grana, mas penso que se o fizer vou ser só mais um a somar na estatísticas do que não valorizam a educação e a ciência.. Seu texto é muito bacana em problematizar isso e acho que devemos fazer sempre, se não discutirmos nunca seremos enxergados!!
    ..
    De qualquer modo, quero dizer que vc inspira e é muito legal ver alguém da área sem medo de dar as caras, discutir e buscar levar a física gratuitamente a todos. Parabéns pelo trabalho!

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  3. Estudantes bolsistas que levam a serio seus estudos para mim nao sao sangue sugas , sao um bom exemplo como cidadaos para o futuro da nacao…sangue sugas pra mim sao os corruptos vagabundos que roubam o dinheiro dos impostos publicos para o seu usufruto proprio e da familia que nada tem a ver com estudos

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  4. É realmente triste ver como os estudantes são tratados no nosso país. Vê-los sendo chamados de “sanguessugas” é deprimente, uma vez que no futuro será esse estudante que irá ingressar ou no mercado de trabalho ou no meio acadêmico nacionais ou internacionais e isso vai gerar riqueza pro país. É preciso semear a terra antes de ela dar frutos, só que parece que o fazendeiro não está percebendo isso…
    De qualquer maneira, obrigado pelo seu trabalho com a divulgação científica! Acredito que com toda essa iniciativa será possível melhorar uma bela porcentagem do nosso ensino de ciência!

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